Categoria: Teatro

Fumo estreia dia 8 de Dezembro

Em Outubro surgiu a ideia de preparar um novo espectáculo com o grupo que compõe a turma de formação da in skené. Uma turma heterogénea, na idade e na experiência, o que tornou o desafio maior para todos. Estava então aceite.

Ao longo dos anos fomos criando inúmeros exercícios teatrais, que apresentámos nas noites de Exercício Final e em 2013 criámos Um Teatro em Revolução, que nos remetia para o interior de um Teatro, onde a sua companhia de actores procurava perceber o que fazer com o anúncio do seu encerramento. Estava encontrado o ponto de partida para esta nova encenação: espreitar novamente o interior do Teatro.

A primeira fase deste projecto começou com a procura das palavras e das expressões de actores, encenadores, pensadores e autores que fizessem reflectir sobre a importância do Teatro e da Verdade. Surge então um primeiro rascunho, que se foi escrevendo e rescrevendo a cada ensaio e que foi ganhando corpo e vida até termos encontrado Fumo.

 

Fumo, de João Ferreira, com palavras, expressões e olhares de Pedro Abrunhosa, Almada Negreiros, Ruy de Carvalho, Sampaio da Novoa, Joana Manuel, Diogo Infante, Eunice Muñoz, Filipe La Feria, Peter Brook e que podiam bem ser as suas.

 

Uma companhia de 23 actores e o seu encenador vivem imersos na sala de ensaio, na sua sala de criação. Uma sala que se expõe sempre inacabada, como um estaleiro, onde imergem e procuram criar os seus espectáculos. Como uma família, partilham juntos as suas conquistas e frustrações, atacam-se e apoiam-se, sempre juntos, “unidos como os dedos da mão”. Protegidos pelas paredes sem janelas da sala de ensaio, os actores revelam os seus medos, as suas inseguranças e, claro, as suas justas ambições. Competem entre si, mas observam-se com igual empenho. Nenhum momento, nenhuma fala é irrelevante. A observação é uma arma poderosa para a criação e eles sabem-no.

Com o anúncio do encerramento do teatro, que irrompe a meio do ensaio para uma espécie de Cabaret, os actores começam um processo difícil de assimilação e, talvez, de aceitação desse fim anunciado. Do Cabaret, apenas os tons de vermelho acompanharão a cena até ao espectáculo final. Vermelho, uma cor sem acaso.

Começam por discutir a forma como se poderá encerrar aquele Teatro. Se uns mais experientes denunciam já uma amarga melancolia, outros, mais jovens, transformam a frustração e raiva em criação e trazem para o palco a imagem de um Teatro em chamas. Só o fumo que sai do Teatro fará a cidade parar e observá-lo. Só assim o podem manter vivo. Será?

O encenador observa-os e garante as condições para que a criação não pare e aconteça de forma espontânea. Mais luz, ou menos luz. Com ou sem música. Nem sempre é bem-sucedido e à medida que os actores procuram continuar o seu trabalho, à medida que procuram criar o final perfeito, mergulhamos em momentos dispersos, por vezes quase surreais. Fragmentos de textos e peças, que usam como armas para defender o seu direito à Arte, ao seu Teatro. Querem dar sentido ao derradeiro espectáculo. Procuram a Verdade.

Por raros momentos o palco fica vazio, mas é nesses instantes que nos permite observar a sua maior fragilidade.

Da sátira que critica a comercialização da actividade cultural, que critica o apelo a uma simplicidade oca no diálogo, saltamos para um grito de amor à arte de representar.

Um vestido preto, como que um luto alinhado com as paredes daquela sala, rodeado de cor e vida, encerra (?) o espectáculo, provando-se que a maior solidão se pode viver ali mesmo, junto de tudo o que amam.

Fumo. Na esperança de uma cidade que pare e o observe.

 

João Ferreira.